Terça-feira, 16 de Junho de 2009

poemas de maria ivone e elisabete brito




ESFINGE
por Maria Ivone

Paixão,
pasto em labaredas?
Amor,
quieto quintal
de doces frutos
a espera?
Não.
Não é preciso
decifrar-me.
No feitiço das palavras
sou clara como cartilha,
água mansa,
do lago que perpassa
nossa história,
é como sou agora.


......................................................


Feito a mão

por Elisabete Brito

meu verso
o prazer de fazê-lo
não tem preço.
amor
trabalho
duas mãos
dez dedos
nada cobro por ele.
Só os anéis, digo, os papeis.

* * *

Todo dia
nos recantos do ser
surgem mistérios
sensações
que fazem estancar o passo
o coração dispara


Ora é um momento breve
que te franze a face
te enternece
ou faz cantar

A vida é poesia
se tua alma se abrir
vais ouvir mil sinos
no correr do dia.

Domingo, 3 de Maio de 2009

três das ilustres em pauta


LÍNGUA VIVA

Na inquietação salgada do mar
imagens e silêncio.
Palavra é muda.
Sentir e pressentir presença,
basta.
No incêndio do sol fogo,
a sombra, como toldo,
abriga gestos.
Na brancura da areia fina
cubro-me com teus versos.
O amor se faz manifesto.
Agrada-me o poder do teu verbo,
a flor da língua viva na palavra
me enriquece.
Cercada das essências
sou ilha imersa.


Maria Ivone L. Fernandes
Inverno/2005


* * *


Quaresma

Abrir os olhos, comer o pão. Banhar o corpo,cobri-lo com vestes. Andar,falar. A fronte coberta de cinzas. Para sempre.


fevereiro de 2009

BODA

Um riso fugindo da boca. O olhar que se demora. Dois em um, agora.

Mirta - março 2009


* * *


PALAVRA

Olha pro lado. Sentado
sem dizer palavra,vai alguém sedento,
quem sabe, de toda essa torrente que aprisionas
por timidez ou vaidade .
A palavra – sabe ? – é dom tão grande e puro
que se expressa no grito ou no sussurro.
Não a prendas. Ela tem asas
que conduzem a vida, o amor, a esperança e a beleza.
Deixa-a fluir: ela é linda como uma avenida
cheia de pontos atrativos,vitrines e surpresas.
E essa avenida tem mão dupla, com certeza.

Elisabete





Segunda-feira, 30 de Março de 2009

uma crônica da alice

COMILANÇA

O ato de comer, na vida normal, acontece todos os dias. Não tem outro jeito. Não estou falando aqui daquelas pessoas que não comem diariamente e que a sociedade não dá a menor pelota. Falo de quem come três refeições diárias. É comer simplesmente as refeições que pomos a mesa, normalmente, para que possamos alimentar o cadáver que ainda respira.
Tudo acima foi para começar o assunto: a comilança do Natal. Não sei se Jesus comia tudo isso no seu aniversário, mas creio que não. Ele pregava a igualdade, a humildade e se houvesse abastança era para ser distribuído. Ele começou com o tema, todo o mundo abusa e fala nisso para posar de gente fina, boazinha sem distribuir uma merreca sequer. Ai´sai na crônica social. Há várias incursões pela mídia. Apresentam pratos da cozinha natalina, iguais ou diferentes, conforme o país. È um mês de correria pelo mercado moderno para comprar os ingredientes e os presentes. Mas nem todos ficam contentes com os últimos.

Na noite de Natal, os que comem, todos se apresentam sorridentes como se fossem generosos, dão presentes úteis e inúteis e os que comem, exibem os quitutes próprios das regiões. Cada um come ou deglute o que consegue enfiar goela abaixo. Se tem maxilar forte exagera na dose. Bebe-se adoidado. É um festival de mastigação e beberagem estupefacientes, sem nem se lembrar do significado da data. As gentes não estão nem aí para o aniversariante.

A controvérsia é a constante. Ai entra a velha discussão sobre o poder. Quanto maior exibição de riqueza melhor, contrariando as premissas cristãs mostram a todo custo o que podem mostrar. Ter é poder, já disse não sei quem. E Jesus Cristo calado. Devia aparecer de repente, para dar um susto e perguntar ‘o que que é isto misifiu?

Logo, o espírito de Natal é somado por mais moedas do que Judas pudesse imaginar, e, Jesus Cristo se dilui no espaço.

Alice 26.12.2008

Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

mirta, sua prosa sensível e precisa

www.verbavisual.blogspot.com


Comprovação

Elas ainda existem, as avós iguais as que tive um dia. Eu vi, hoje mesmo, um legítimo exemplar das que fazem bolinhos de chuva, tem opiniões respeitadas, conhecem sabedorias e curas milenares e oferecem conselhos acalentadores.

Lá vinha ela, solene, no corredor do hospital. Magrinha, ar sereno e sério, era toda força em sua saia preta, reta e longa, casaco sete oitavos cinzento, cabelos grisalhos arranjados em coque, sapatos pretos anabela, meias fumée. Achei-a tão bela que fiquei esperando ver ao seu lado Frajola e Piu-piu e eu menina correndo atrás dela.

Mirta (setembro 2008)

Estranha

Nunca vivi onde nasci. Cansei de explicar. Ainda não sou daqui, mas quase. Isso elucida muita coisa, esse meu ar de quem está a passeio no mundo. E talvez esteja.

Mirta

poemas de elisabeth

Saudade, sim

Tendência linguageira mera
faz-me enveredar no tempo
priscas eras
quando amor era amor
desprezo, desprezo
fogueira, fogueira
os olhos choram
chora a cara
de núpcias com a saudade
preciso, sim, tornar hígidos os músculos da alma
para perpassar, sem queimados
nem resguardos,
o quarteirão do tempo
que me joga lá,
lá na casa branca do Bairro,
extasiada face à fogueira de São João
e logo vê-la transformar-se,
apagar-se até se tornar
amásia da geada e, juntas,
amplexo de paixão,
cortarem noite gelada
esqueleto frio, a fogueira,
na noite encardida de estrelas
arredias

Elisabeth maio /2007

ADEUS AO PORTO

Antes, só pensamentos me seguiam nas jornadas.
Misteriosamente, agora,
escuto um arrastar de ruas e ruelas
rondando meus fazeres,
imensas escadarias me seguem em pegadas silenciosas.
Ouço passos no encalço
que me gritam adeuses.
Quando busco vê-los,
são bandeiras coloridas
acenando de sacadas e janelas.
Comove-me tremular delas.
Se lhes grito “ vos amo”
Minha voz se confunde com os ecos
de mil becos: “vus amo”, “vus amo”, v’s amo”.
Ficou-me na lembrança tanto encanto,
as roupas penduradas, tão singelas,
as bicas d’água, o cais,
as igrejas eternas,
e essa ventura que eu sorvia,
dia a dia,
eu, que não sabia nada dela.

Elisabeth / Portugal, 11.04.91

Sábado, 27 de Dezembro de 2008

alice farias lopes e seus filosofemas



arte: rosa marques (www.verbavisual.blogspot.com )
Um poema no apagar de 2008

Estranha solidariedade
a indiferença
da vil realidade
da prática humana
que vê no próximo infeliz
uma obra que Deus emana
castigo dos céus

Sem contar que somos nós
cegos por interesse
autores de quem padece
Donos da ganância
multiplicada exuberância
das benesses
que a natureza nos dá
Colhendo sem dividir
a partilha divina
(Alice F. Lopes)

Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

dois belos poemas de arlita azambuja

Registro

Teu corpo
em especial
tua bunda
tão rija
escultural
inquieta

inconscientemente anda
de lá pra cá
de cá pra lá

Na prazerosa andança
meus olhos a seguem
e em ziguezague dançam

Descompasso

Ando em descompasso.
Sobre mim resvalam aconteceres
que desconcertam e me engrampam.
A voz do contentamento silenciou.
De forma crescente sirvo de isca, chamariz,
sou o próprio engodo e pateteio.
Serei um palerma?
Minha voz interna murmura
o que não quero ouvir.
No meu esforço o que sou?
Serei de corpo e alma
um esquálido pigmeu?

Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008

alguns haikais não ortodoxos da elisabete

Eloquente silêncio
Pensamento em transe
Jogue os dados.
*

Pensamento te pertence
Larápios às soltas
Muros.
*

Pitanga doçura
sabor delícia
Infância.
*
Deixou a moça não
lhe deu mais nada
Nem água de cheiro.

Sábado, 29 de Novembro de 2008

duas prosas da Maria Ivone



BOMBANDO


Enovelaram-se no primeiro olhar. Bombava o rock, rugia a galera endoidecida na balada. Quando ergueram os braços para o embalo da música, se enrolaram. Quiseram estar assim. Explodiu o desejo, se agarraram. Amassos, beijos, e o rock rolando. Até o fim da balada estiveram grudados. Saíram, ficaram.

Na balada seguinte nem se viram. Cada um ficou na sua. Do novelo desnovelado não resta nem um fio.

Maria Ivone

NA DITADURA

Insultada saltou feito mola. No salto, a cusparada emporcalhou a cara do soldado.
Feito o estrago, foi dali para o DOPS, para prisões imundas, na sórdida justiça sem advogados nem outras regalias.

Ontem deu à luz a Marina cheia de graça, perfeita, esperta, risonha. Hoje volto do seu enterro. Daqui pra frente Marina só terá pai.

Maria Ivone

Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008

a imagética de yara costa machado

IMPOSSÍVEL

Colisão das horas
desorientação
sem conhecer caminhos
sem saber destino
dispo-me do cansaço
esforço-me em aço
vestida de espelho
dispenso complexo
vivo reflexo
bêbeda de luz
liberdade
e a despeito do impossível
crível

(extraído da recente edição do calendário 2009 das Ilustres Desconhecidas)

Terça-feira, 28 de Outubro de 2008

a pequena grande poesia de zilda gay



vou levando

com cuidado

saudades

tristezas

para que elas

não me maltratem

consolem


*


janela aberta

luz iluminada

mente desperta


*


despido de tudo

vaidade abrigo

mendigo


*


doce vinho acabou

ficou o sabor

na boca aquecida


*


verdes espigas

vento espalha

depois só palha



(esses poemas integram a recente edição do calendário 2009 das Ilustres Desconhecidas)

Sábado, 4 de Outubro de 2008

11 calendários formam uma bela seleção

Lançamento da 11a. edição do calendário 2009 das Ilustres Desconhecidas, dia 22 de outubro, quarta-feira, a partir das l6 horas na sede nova do Instituto dos Arquitetos do Brasil, Departamento do RS, na Rua General Canabarro, 363, entre a Riachuelo e a Duque de Caxias.

Entre versos, rimas e crônicas elas aperfeiçoam o dom de escrever. Nesta edição do tradicinal calendário, ilustrado por Wanita Menezes, está a disposição do leitor uma poderosa amostra dessa produção. Confiram!